Ao despertar de um coma induzido, descobre-se em outro lugar. Deitado em leito, a primeira visão que tem é a do céu – em sala de teto aberto. Um estranho teto. Quatro biombos grandes brincando de parede deixavam, ainda, transar os ramos de plantas sadias para dentro do espaço. Não haviam aparelhos ou sondas como ele se lembrava de existirem em memórias picotadas. Levantou e caminhou. Não era sonho, dada a realidade, mas poderia ser, dado a sensação. O primeiro que viu, logo o chocou. Era uma mulher. Não era uma mulher. Era uma criatura humanóide muito semelhante à mulher. Era negra e estava com um vestido longo levemente transparente e de cor indecisa, pois evoluia em tons em degradê que parecia responder ao tom de sua voz e também às movimentações das nuvens. Não disse uma palavra ao vê-lo fora da cama. Um cabelo pesado no rosto até o queixo, era difícil discernir suas linhas de face. Suas vozes, no entanto, eram super claras e embora múltiplas, não soavam como um coral que projeta o som multiplicado de uma só direção. O desperto escuta ela chamando, e o som parece vir de seus lábios, mas a voz se projeta também da pedra ao seu lado, do biombo aberto, das raízes e das folhas, todas em um dedo de momento diferente, mas com a mesma mensagem – ouve de uma dessas vozes, uma risadinha infantil ao final da frase, que certamente não estava na voz original, e nem nas demais que se seguiram ou transaram a ela.
Do alto do morro, o paciente vê as construções de uma cidade desordenada, feito ruínas, embora intacta. Lembra-se de prédios ladeando ruas antes de um coma. Aqui não há ruas, apenas prédios em que brilham janelas, de alturas diferentes, mas de cores indiferentes, de acabamento inexistentes. Não há ordem para os prédios, a não ser uma distância exata entre eles, seja para que lado for, a distância parece ser a mesma entre um e outro. A altura, embora varie, é geralmente tão alto quanto um prédio de quinze andares, portanto alto, e uns na exata metade da altura entrecortam a distância padrão pela metade, ficando, sempre que aparecem, exatamente no meio de dois prédios altos. É curioso e extremamente confuso, pois a bem da verdade não há ordem ou lógica senão de altura e de distância.
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